sábado, março 15, 2008

Lobo da Reboleira

Das personalidades ilustres oriundas do concelho de Celorico de Basto, destaca-se António da Cunha de Sousa Lobo, também conhecido por Lobo da Reboleira, pelo facto de ter morado na Rua da Reboleira, numa casa que ainda hoje está de pé, na cidade do Porto e que constitui um dos exemplares mais interessantes da arquitectura civil dos finais da Idade Média. Seus pais, "fidalgos de bom sangue", segundo o historiador romancista Eduardo de Noronha, eram à época (sec. XVIII), na Região de Basto, abastados proprietários e os nomes das suas casas e quintas ainda hoje perduram. Além da quinta e Casa da Breia em Molares onde viviam (casa essa que infelizmente, muitos anos mais tarde, haveria de ser destruída), possuíam, também, a quinta da Bouça (Molares), a casa e quintais de Fermil (Veade) e a quinta de Soutelo (Ribas).
António de Sousa Lobo estudou, até completar dezassete anos, no seminário de Braga, na companhia de seu irmão José. Não obstante terem sido bons alunos, nenhum deles recebeu ordens, pois que "os seus temperamentos não se coadunavam com as obrigações eclesiásticas". Uma vez abandonados os estudos seguiram para o Porto onde se dedicaram ao comércio. Mais tarde, porém, o José iria para Lisboa abraçando o mundo das Finanças, enquanto o António, permanecendo no Porto, dedicou-se à exportação e importação de vinhos finos (especialidade em que se notabilizou) e de bacalhau.

Homem inteligente, pertinaz, enérgico, de tacto e muita lisura, António de Sousa Lobo não demorou muito a tornar-se possuidor de uma grande fortuna, pois que, além dos negócios já referidos, tornou-se detentor de prédios e quintas que o faziam ombrear com os mais abastados proprietários do seu tempo. Não fossem essas qualidades, dificilmente se teria recomposto de um grave desaire que teve aquando de um temporal que lhe destruiu, na barra do rio Douro, quase todos os navios da sua frota. As águas tudo tragaram: "vidas e fazendas"! O certo é que "depressa se levantou".

Possuidor de um temperamento económico e homem "fazedor de boas contas", granjeou com isso, todavia, adjectivos nem sempre recomendáveis para uma pessoa de bem: agiota, usurário, avarento, etc.
Ainda segundo Eduardo de Noronha , António de Sousa Lobo era de facto, agarrado ao dinheiro, pois "sabendo o que ele custava, não o desperdiçava", mas daí "a ser miseravelmente avaro vai um abismo". É notável por exemplo, o que ele fez com as irmãs à morte dos pais. Por se revelar, ao tempo, uma atitude inimaginável alguém praticar em condições idênticas, vale apenas relatar.
É o que passamos a fazer.

Como já atrás se referiu, seus pais, Manuel da Cunha e D. Inácia Maria de Sousa Lobo, senhores da casa da Breia, eram detentores de uma grande fortuna. Quando morreram, numa época em que o morgadio ainda se encontrava institucionalizado, António Sousa Lobo propôs ao seu irmão José deixar todos os bens herdados às irmãs, D. Antónia, D. Maria e D. Ana, visto eles serem homens e, como tal, poderem ganhar a vida trabalhando.

Além das propriedades, "deram mais os dois, às suas irmãs, quantias iguais aos maiores dotes que nesse tempo havia na região de Basto" - milhares de cruzados, em dinheiro, e riquíssimos enxovais, aquando dos respectivos casamentos. Segundo a tradição, para o transporte desses enxovais, constituíam-se autênticos cortejos de carros puxados por animais, tais eram grandes e pesados os baús, de couro, ornamentados de taxas de metal amarelo. Autênticos espectáculos públicos para gáudio do povo que os contemplava!

A amizade que nutria à família era notória. Não só o relevante caso que acabámos de descrever nos leva a tal conclusão, como outros gestos patenteados ao longo da sua vida. Conta-se, por exemplo, que um dia seus pais, por motivos de águas, tiveram uma demanda com o dono da Casa do Campo, seu vizinho. O Lobo da Reboleira fez questão de pagar todas as despesas que daí decorreram. Não era, apenas, a família a única contemplada com gestos altruístas como este. "Nunca um conterrâneo seu lhe solicitou auxílio que não lhe concedesse com liberalidade".
De instituições públicas e privadas, associações humanitárias, etc. foi um benemérito de mãos largas. A Santa Casa da Misericórdia e o Hospital do Conde Ferreira, no Porto (locais onde se encontra o seu retrato a óleo e cuja reprodução acima se exibe), são disso bons exemplos.

Não obstante os governantes e políticos procurarem obter dele dividendos, não se tornava fácil demovê-lo, desde que antevisse que havia interesses por parte do poder instalado. Dizia-se comerciante e não político. É que "a política não enriquece os homens honrados..." no seu entender.
A Rainha Dona Maria II quis-lhe dar o título de visconde ou fazer dele comendador. O máximo que conseguiram dele foi, a muito custo, que aceitasse o lugar de vereador da Câmara Municipal do Porto, funções que exercia, por isso mesmo, sem muita convicção.

Contam-se várias histórias que não só confirmam a sua forma de pensar e de actuar, como ilustram o conceito que fazia dos políticos e seus apaniguados.
Um dia, numa reunião da Câmara em que estava presente o Senhor Lobo da Reboleira, o seu Presidente, antevendo uma visita ao Porto de sua Majestade Real e, querendo dar maior dignidade às cerimónias que ali se pudessem realizar, aconselhou que, para certos actos, os senhores vereadores passassem a usar uma farda concebida especialmente para estas ocasiões. Constando-lhe, algum tempo depois, que apenas Sousa Lobo não havia mandado confeccionar a respectiva farda, e estando previsto um encontro com suas Altezas, em visita ao Porto, pediu que fosse ao seu gabinete recomendando-lhe que não descurasse o assunto da farda.
Chegado o dia marcado da visita Real, e havendo-se os senhores vereadores concentrado no palácio da Municipalidade para o encontro que se seguiria com Dona Maria II, apenas Sousa Lobo não compareceu.
Tal facto muito inquietou o Presidente. Quando se preparava um emissário para indagar da sua ausência, eis que aparece um criado do senhor vereador com um tabuleiro de prata e um bilhete que o Presidente da Câmara leu em voz alta:
"Senhor Presidente:
Se a questão é da farda, e não de pessoa, aí mando o que deseja.
S. L.”

Só uma ida do Chefe da edilidade portuense a casa de tão sui generis Vereador, haveria de convencê-lo a mudar de atitude.

Em outra ocasião, e após o Marechal Saldanha ter concedido "títulos de conveniência"- visconde, barão, comendador e outros – o Lobo da Reboleira ao passar na Rua dos Ingleses, com duas grandes pescadas na mão que fora buscar a um seu navio ancorado na Ribeira, cruzou-se com um grupo onde estava um visconde e dois comendadores dos tais. O visconde, pretendendo ridicularizá-lo, pergunta-lhe com pseudo ingenuidade: "Oh, Sr. Sousa Lobo! Então Vossa Mercê não tem um pataco para dar a um garoto que lhe leve a pescada?", ao que prontamente respondeu: - "O pataco tenho; o que não há são garotos para recados: foram todos feitos viscondes".

"Não posso engolir estes nobres de fresca data; fazem-me o efeito de máscaras". - confidenciara ele ao sobrinho António.

António Teixeira Monteiro de Sousa Lobo era o sobrinho querido do Lobo da Reboleira. Quarto filho de sua irmã Ana e de Manuel José Teixeira Monteiro da Cunha - donos das Casas Novas da freguesia de Gémeos, onde nasceu em 1812 - era o único familiar com quem o Lobo da Reboleira mantinha relações de convivência. Viveu com o tio, antes de casar, alguns anos. Daí os diálogos constantes entre ambos, ora críticos, ora jocosos, merecendo alguns deles ser relembrados, para melhor se conhecer o carácter e forma de pensar de tão bizarra personalidade.

A propósito da confidência atrás referida e depois de aconselhar o tio a ser mais prudente nas respostas e frugal nos comentários, evitando algumas contrariedades como as que já tinha tido, pergunta-lhe o António:
- Porque não modifica o seu génio?
- Porque não quero. Um pergaminho que cria linhagem - acrescenta - deve ser um espelho de límpido cristal a reflectir com a maior exactidão o carácter do agraciado e o valor da obra determinante da graça.
- Não será exigir muito, tio?
- Não sabes o que dizes. Estes negócios de heráldica, de genealogia, de fidalguia, de sangue azul, andam cada vez mais descurados e mais tortos... e sempre com tendência para pior.
- Vai o tio endireitá-los, talvez? - retorquiu o sobrinho.
- Eu perdoo que o nascimento não seja ilustre, que a nobreza venha da mãe e não do pai; o que não compreendo é que um militar falte ao juramento de fidelidade à rainha e receba uma mercê; que um negreiro, farto de vender pretos livres como escravos, receba por título de barão; e que um funcionário prevaricador se adorne com o escudo de visconde, quando devia arrastar a grilheta dos calcetas.

Era, assim, o Lobo da Reboleira: justo, pragmático, realista, honrado. Soube criar riqueza com inteligência e espírito de economia. Ao contrário do que as más-línguas e os invejosos propagandeavam, apoiava com ajudas financeiras, os necessitados, instituições públicas, associações humanitárias, hospitais. Não voltava as costas à família, nem aos conterrâneos sempre que tinha conhecimento que a sua intervenção era importante. O seu grande "pecado" foi, para alguns familiares, ter feito testamento a favor de Justino Ferreira Pinto Basto, seu amigo pessoal, a quem reconhecia dotes de bom gestor e seriedade.

António da Cunha de Sousa Lobo morreu, no Porto, no dia 6 de Março de 1866, com cerca de 81 anos.
Ainda assistiu, já não como vereador, mas como mesário da Santa Casa da Misericórdia do Porto à inauguração, em simultâneo, do Palácio de Cristal e da Feira Internacional, que ocorrera a l8 de Setembro de 1865, na presença do Rei D. Luís I.

Fora casado, mas cedo enviuvou, e não deixou filhos.

Qualquer Celoricense ao conhecer os atributos deste seu conterrâneo que projectou o nome de Portugal, para além fronteiras, numa época politicamente conturbada, tem sobejos motivos para se sentir orgulhoso.

domingo, fevereiro 17, 2008

Lenda - Justiça popular

O Castelo de Arnóia, com aspecto nitidamente medieval, ergue-se no roqueiro cume do monte desta freguesia, de robusta construção. Conseguiu resistir ao tempo e ainda hoje, compreendemos o seu papel na salvaguarda e sossego dos povos confiados à sua vigilante protecção, naqueles tempos remotos.
Ignora-se por completo tudo o que diga respeito à sua fundação, atribuindo-a, uns aos romanos, outros aos árabes.
Na primeira hipótese, à sombra dele teria tido assento a povoação de Celióbriga, a qual, pela semelhança do nome, alguns pretendem identificar com Celorico de Basto. Mas, fundado por uns ou por outros, ou simplesmente pelos primeiros e conservado pelos segundos, afirma-se com alguma segurança, que o Castelo de Arnóia já existia no século X e que encerrado em 1002, o ciclo das invasões anuais de Almançor, terá sido restaurado por Muninho Viegas, o Velho, que assim pôde prosseguir na sua missão, mais de paz do que de guerra.
Contudo, tinha o seu alcaide e os homens necessários ao serviço de vigilância.
O Alcaide desta época era Vasco Martins da Cunha, neto de Lourenço Fernandes da Cunha e segundo sobrinho do célebre D. Gualdim Pais, Mestre da Ordem do Templo.
Atendendo que a família vivia habitualmente em Braga e, aliada aos poucos rendimentos da alcaidaria, pediu a exoneração do cargo que a Rainha D. Beatriz, a “Rabuda”, mulher de D. Afonso III, lhe havia confiado.
Tudo isto se terá passado entre 1281 e 1282, em que por carta de D. Dinis, é dado o arrendamento do Castelo ao mercador de panos Martim Joanes, que se obrigaria a pagar duzentos e dez morabitinos velhos de renda anual e contratar, por quinhentos soldos, para alcaide, um cavaleiro ou escudeiro de linhagem.
E assim, pouco tempo mais tarde, era nomeado para este cargo Pêro Menendis, filho de Gonçalvus Menendiz, de Muxões, termo de Valdebouro que não obstante descender de boa família e ser cavaleiro vassalo da Casa de Barcelos, gozava de fraca reputação, pelo seu feitio libertino, mulherengo e brigão que o tornavam um homem sem escrúpulos.
Mas… tudo tem o seu termo!
E como o Castelo de Arnóia tem uma espécie de auréola de lendas muito significativas, passamos a descrever uma lenda de “Justiça popular...na Villa de Basto".

Na sede da povoação da pequena Vila de Basto, moravam duas irmãs, órfãs, padeiras de profissão e muito bonitas. A mais velha chamava-se Guiomar, de trinta anos, já viúva de um carpinteiro. A mais nova chamava-se Aldonça, não tinha mais de dezoito anos, ainda solteira e estava prometida a Sancho Meleiro, um negociante de cereais e moço de bons costumes.
Acontece que o alcaide apaixonou-se pela irmã mais nova, a Aldonça, fazendo-lhe permanentemente propostas indecorosas, mas sem nunca ter sido correspondido aos seus desejos, pois esta jovem já tinha decidido casar com o Meleiro.
Decidido que estava o casamento, era necessário pagar o tributo que, segundo a tradição local, há muito tinha substituído o antigo e já caduco direito consuetudinário (usos e costumes) dos senhores da terra poderem “usufruir” as noivas antes dos maridos…Efectivamente, o “direito da pernada”, que consistia no privilégio da “prima noctis”, já tinha caído em desuso há muito tempo.
Quando os dois se dirigiram ao castelo para pagarem o tributo, o alcaide, perante a beleza da rapariga, sentiu-se atraído, recusou o tributo pago daquela forma, e exigiu pôr em prática direitos caídos em desuso. Indignada, a noiva lançou-lhe aos pés o tributo e terá dito que só ao seu futuro marido pertenceria.
Ao deparar-se com tal ofensa, o noivo envolve-se numa luta renhida com o alcaide, onde nenhum quer o lugar de vencido. Meleiro não desarma e, não se conformando com esta atitude, vai desferindo alguns golpes no seu rival. O alcaide, sentindo as forças fraquejar, clama por socorro e é acudido por alguns homens do castelo que entretanto, conseguem manietar o Meleiro. Então o alcaide prende-o e manda cortar-lhe as orelhas, como se ele fosse um ladrão (castigo que na Idade Média se dava aos ladrões).
Ao ver tudo isto, Aldonça fugiu do castelo e apesar de ter partido uma perna no percurso, conseguiu chegar à vila e narrar o que se passava, pedindo que libertassem o seu noivo.
Armaram-se homens e mulheres que, apressadamente, vencem a encosta do monte, em direcção ao castelo, o povo todo amotinou-se, tocou a rebate e de toda esta redondeza das Terras de Basto, chegaram multidões, invadiram o castelo, com chuços e foices e ameaçam pegar fogo à torre. Então o alcaide, receando um mal maior, e, possivelmente, irremediável, decide-se a indemnizar o Meleiro pela desfiguração que lhe causara e a restitui-lo à liberdade.
O alcaide desistiu desta, mas ficou com os olhos na irmã mais velha, que se chamava Guiomar, já era viúva, mas também muito bonita.
Começou então a assediar a Guiomar com pedidos, com alguma insistência, até que uma manhã, o alcaide quando ia para a caça, cruzou-se na vila com esta mulher e ter-lhe-á dito que, à noite, a procuraria em casa. Apesar de lhe ter dito que era mulher honesta, tentou evitar qualquer espécie de represália. Ele, porém não se deu por convencido e quase lhe impôs que no regresso, o esperasse para combinarem melhor o encontro. Perante isto, Guiomar contou tudo ao seu futuro cunhado, o Meleiro, que viu aqui o melhor momento para se vingar do alcaide, tendo aconselhado a Guiomar a receber o alcaide em casa, onde tinha os fornos, desde que vá desacompanhado e guarde o maior segredo.
Já de regresso dos montados, à tardinha, o alcaide parou junto à residência de Guiomar e insistiu nos seus propósitos. Ela concordou, mostrando o seu melhor agrado, pois tinha o plano todo combinado com o cunhado.
Logo que anoiteceu, os dois cunhados conseguem avistar, da janela de onde espreitavam, dois vultos, e de imediato reconheceram o alcaide, que se fazia acompanhar de um homem do castelo, aquele que por ordem do amo, cortara as orelhas ao Meleiro.
O alcaide depois de bater à porta, entrou, enquanto o escudeiro aguardou pelo seu amo no exterior da residência. Quando o alcaide, depois de recebido por Guiomar com alguns sorrisos, dirigem-se para o interior da casa, mas claro, a família estava escondida e quando o alcaide julgava que ia ter a Guiomar entre os braços, o que sentiu foi a acha de armas a fender-lhe o crânio e… era uma vez um alcaide!
Para não existir vestígio do crime, meteram-no no forno do pão e o alcaide reduziu-se a cinzas.
A lenda acrescenta que o criado do alcaide, ao verificar que a demora já era grande, decidiu bater à porta, para lembrar ao amo a conveniência do regresso ao castelo.
Este, mal tinha atravessado a soleira da porta, apanhou com a mesma adaga que vitimara o alcaide e também foi atirado ao forno.
Depois de consumado o drama, Meleiro foi feliz na companhia da sua mulher Aldonça e Guiomar conseguia viver em paz.
Entretanto os dias iam passando e o alcaide não chegava ao castelo. Homens armados percorrem toda a redondeza, por veredas e caminhos. Em vão… ninguém vira o alcaide.
Como deixou de haver alcaide, D. Dinis decidiu entregar o castelo aos moradores do lugar, pela prestação anual de duzentos e sessenta morabitinos velhos, cabendo aos arrendatários o direito de nomear exactores para a respectiva cobrança e impedir actos de violência.
Esta situação manteve-se, pelo menos, durante dez anos, pois, em 1294, era investido na alcaidaria, D. Gonçalo Mendes.
Na opinião do historiador José Hermano Saraiva, isto significa o atrito, a situação de conflito entre os detentores do poder, da propriedade e da soberania e a gente do povo.
Terras de Basto, era uma terra de fidalgos, casas senhoriais, solarengas com torres, gente grande e ao mesmo tempo uma população humilde que lavrava a terra, semeava as searas e colhia o pão.

sábado, fevereiro 09, 2008

Prof. António Alves de Moura

António Alves de Moura, nasceu em Infesta, concelho de Celorico de Basto, a 19 de Abril de 1856, e faleceu, vitimado por uma congestão cerebral, em 3 de Setembro de 1927.
Nomeado professor de Britelo, Celorico de Basto, em 8 de Janeiro de 1877, exerceu até 8 de Janeiro de 1927, durante meio século num verdadeiro sacerdócio de trabalho exaustivo, educando e instruindo, pelo menos três gerações de alunos: pais, filhos e netos.
Paralelamente, foi durante alguns anos Secretário da Redacção e Editor do Jornal “O Povo de Basto”.
António Alves de Moura criou um Método de Leitura, aprovado oficialmente – tipo cartilha maternal – e um método designado por Quadro Móvel, instrumento com uma aparência elegante e estética e que utilizando já os caracteres móveis, ensinava os seus alunos a ler correctamente em poucos meses.
Este método arrecadou numa exposição do Rio de Janeiro, um primeiro prémio, sendo o autor condecorado com medalha de ouro, e também premiado na Exposição Pedagógica do Palácio de Cristal do Porto em 1890.
Em 1952, numa sessão solene pública, houve uma grandiosa e sentida homenagem, a título póstumo, prestada nos Salões da Escola Masculina da Vila de Celorico de Basto, pelas entidades oficiais, antigos alunos e saudosos amigos, comemorando simultaneamente a data em que 25 anos antes dera a última aula e o centenário do seu nascimento que se verificaria em breve.
António Alves de Moura era casado com D. Maria Marinho da Mota e Moura e pai de três filhos, o Dr. Eduardo Alves de Moura, e as Professoras D. Francelina Alves de Moura e D. Ana Marinho Alves de Moura, esta condecorada com o grau de Cavaleiro da Instrução e casada com Vasco Luís Monteiro, Professor do Ensino Primário.
Ao Largo em que se localizava a Escola “Conde de Ferreira”, onde foi seu primeiro professor, junto à Capela de Nossa Senhora da Conceição, e durante meio século leccionou, foi dado oficialmente, pelo Município de Celorico de Basto o nome de Largo Professor António Alves de Moura, cuja placa toponímica foi descerrada oportunamente.

terça-feira, janeiro 01, 2008

Ponte de Arame

A ponte de arame no lugar de Lourido, sobre o rio Tâmega, liga as freguesias de Rebordelo (concelho de Amarante) e Arnóia (concelho de Celorico de Basto).
Para chegar até esta pitoresca ponte, constituída por cabos de arame entrelaçados, com estrado de madeira, ao seguir a estrada N210 no sentido Celorico de Basto – Amarante, encontrará um desvio à esquerda que dá acesso à pequena povoação de Lourido, situada na margem direita do rio Tâmega, que pertence à freguesia de Arnóia.
Ao passar junto à estação dos caminhos de ferro da extinta Linha do Tâmega, e já em direcção ao rio vamos deparar com a ponte de arame. A sua travessia constitui uma autêntica aventura, atendendo ao seu aspecto frágil e ao balouçar de forma pronunciada, mas apesar disto não há registo de nenhum acidente ao longo destes anos.
A ponte aparenta uma tipologia simples, constituída por um piso de madeira apoiado em barrotes, também de madeira, pendurados por arames em cabos metálicos amarrados nas encostas das margens do rio.
A actual ponte, construída por volta de 1926/27, não é a primitiva. Tem um comprimento de 55 metros e 2,5 metros de largura. A anterior era mais estreita e terá sido construída nos finais do séc. XIX e foi cortada numa das margens pelos “Galinhas” de Codessoso a mando da tropa de Amarante… por receio que os de Vila Real por ali passassem.
Em Portugal estão identificadas seis pontes de arame situadas no norte do País, incluindo uma no concelho vizinho de Ribeira de Pena, que se tornou num ex-libris, depois de uma profunda intervenção de reabilitação e reforço.
Naturalmente e devido às características dos materiais que a constituem, é uma estrutura particularmente sensível à acção dos agentes atmosféricos, pelo que na ausência de uma manutenção adequada a sua degradação evolui rapidamente, pondo em causa a segurança de pessoas e bens.
Sabemos que o Município de Celorico de Basto está preocupado com o estado de conservação da Ponte de Arame de Lourido, pelo que a sua recuperação é uma obra mencionada no Orçamento e no Plano Plurianual de Investimentos de 2007, no sentido de continuar firme e permitir o intercâmbio entre as duas margens do rio Tâmega.

sábado, dezembro 01, 2007

José do Telhado

Relato de um assalto em Celorico de Basto
Na noite de 8 de Abril de 1852, por volta da meia-noite, a quadrilha do José do Telhado assaltou a casa do lavrador Domingos Gonçalves Camelo que vivia na companhia de sua mulher Maria Francisca no lugar de Paradela, freguesia de Fervença, concelho de Celorico de Basto.
Constava que Domingos Camelo recebeu uma herança de um familiar afastado e guardou o dinheiro nas suas casas, que podia ser na casa de habitação, ou nos anexos, lojas, lagares ou armazéns, muito bem escondido e até diziam que os ladrões podiam procurar por todo o lado, que não dariam com os valores.
Para além do comandante José do Telhado faziam ainda parte da quadrilha, o Pichorra, o Glórias, o José Pequeno, o António Morgado, outro Morgado; estes dois últimos, para não serem reconhecidos e mais outros dois ficaram no exterior da propriedade.
O José do Telhado resolveu assaltar a casa, talvez atraído pela tal herança que constava ter recebido.
“Um deles subiu por cima de uma dessas ditas casas entrou ao seu curral e depois abriu o seu portal para onde entraram os mais…”
Depois de atravessarem o terreiro, arrombaram a fechadura da porta, sem que os donos da casa acordassem.
Entraram pela cozinha, passaram à sala, para onde dava a porta do quarto de dormir.
Os salteadores, dois de cada lado, abeiraram-se da cama e o casal foi acordado por estes vultos tenebrosos.
- Quem está aí? – terá perguntado Domingos Camelo.
- Não se mexa e diga onde está o dinheiro. Já! – ameaçou o Pichorra apontando-lhe uma pistola.
Enquanto pode lá foi resistindo, até que os salteadores levaram um para cada lado, e usando a força de forma violenta, à coronhada pela cabeça e pelas costelas, iam ameaçando: “Confessa, senão mato-te!”
Segundo as declarações das testemunhas do Auto, houve recurso ao disparo de vários tiros para o ar, provavelmente para intimidar este casal de lavradores.
- Entregamos tudo, mas não nos façam mal – disse resignado Domingos Camelo.
- Vamos a isso – respondeu José do Telhado.
- O dinheiro e o ouro está nas gavetas e numa lata debaixo da cama.
De imediato abriram as gavetas das mesas e da cómoda e retiraram a lata debaixo da cama.
Deste assalto resultou, além do dinheiro que totalizada cerca de 150$000 (cento e cinquenta mil réis), três fios de contas de ouro (no valor de nove mil réis), quatro laços de ouro, três pares de brincos de ouro, um cordão de ouro, dois capotes de panos novos, doze lençóis de pano de linho e um lote de pano fino novo.
Este assalto andou na boca do povo por muito tempo, devido à graçola que José do Telhado, ao ver Maria Francisca a choramingar, inconsolada pelos haveres que acabava de perder, disse “não se rale, mulher! De que lhe serve o dinheiro, se não pode comprar com ele uma cara mais nova e menos feia!”

José do Telhado alcunha de José Teixeira da Silva, assim se chamava porque a casa onde vivia com os pais e irmãos, em Castelões de Recezinhos, pertencente na altura ao extinto concelho de Santa Cruz de Riba Tâmega (actualmente pertencente ao de Penafiel) era coberta de telha, uma novidade naquele tempo, pois a maioria das casas eram ainda cobertas com colmo (palha de centeio).
Nasceu em 22 de Junho de 1818, filho de um capitão de ladrões e no seio de uma família onde extorquir o alheio era actividade de raízes fundadas.
Foi um famoso salteador português do século dezanove e era chefe da quadrilha mais famosa do Marão.
Foi perseguido pelas autoridades e mais tarde preso na Cadeia da Relação, quando tentava fugir para o Brasil.
Posteriormente foi condenado ao degredo em África. Em Malange, onde vivia fez-se negociante de borracha, cera e marfim.
Morreu de varíola em 1875, com 57 anos de idade.
José do Telhado «ele mesmo se intitulava – e assim o declarou no julgamento – “repartidor público”, isto é, alguém que tirava aos ricos para dar aos pobres.»
Mapa que mostra o raio de acção da quadrilha