sábado, março 21, 2009

D. Nuno Álvares Pereira

- Um novo santo que foi senhor das Terras de Basto


“Só da fé, só do bem quedam memórias:
Tudo o mais é poeira, um vão ruído,
Uns tumultos de sombras ilusórias…”
PATRIA, de Guerra Junqueiro



Nuno Álvares Pereira nasceu no dia 24 de Junho de 1360 em Cernache de Bonjardim, no concelho da Sertã. Era filho ilegítimo de D. Álvaro Gonçalves Pereira, prior da ordem de S. João do Hospital e neto de D. Gonçalo Pereira, Arcebispo de Braga.
De ascendência nobre, foi viver ainda muito novo para a corte de D. Fernando, entrando ao serviço da rainha D. Leonor Teles com apenas treze anos, começando a servir como escudeiro da monarca e mais tarde também o armou cavaleiro. Leitor assíduo de romances de cavalaria, sonha, a exemplo de Galaaz, fazer votos de castidade.
Contudo, em 1376 é obrigado por seu pai a casar com D. Leonor de Alvim, de família nobre, natural de Salto, concelho de Montalegre e já viúva de D. Vasco Gonçalves Barroso, alcaide do castelo de Montalegre. Deste casamento não houve filhos. “Esta mulher chamou-se Leonor de Alvim, mas poderia ter-se chamado Leonor de Pousada se o seu avô Pedro Soares de Pousada não se tivesse mudado deste lugar perto de Celorico de Basto, para o de Alvim onde construiu o solar da família”.
Dizem as crónicas que Leonor de Alvim era uma mulher rica e bonita, mas apesar disso, Nuno Álvares Pereira não queria casar, pois preferia seguir a carreira das armas.
No entanto, a vontade do seu pai, que tinha trinta e dois filhos de três mulheres, foi mais forte: “Nuno és homem e farás casa. Achei-te noiva entre Douro e Minho. Ela anuiu, pondo como única condição a aprovação de El-Rei que a mandou já vir para a corte. É D. Leonor de Alvim, boa, de boas rendas e cabedal: viúva de Vasco Gonçalves, de Barroso. Vem a caminho, é muito nobre dama e de grande virtude; e a minha vontade manda, se Deus aprouver, que te cases com ela.
O rei D. Fernando e a rainha D. Leonor Teles presidiram às bodas, uma festa que decorreu na corte. Os noivos partiram para o Bonjardim e de lá para a Quinta de Santa Marinha de Pedraça, perto de Arco de Baúlhe, concelho de Cabeceiras de Basto. Aqui viveram durante três anos, até 1379, e do casamento tiveram três filhos. Dois rapazes (que morreram jovens) e uma menina a quem, os pais, puseram o nome de Beatriz que, no ano de 1401, casou com D. Afonso, filho bastardo do rei D. João I. Efectivamente foi este casamento que (por inspiração de D. Nuno Álvares Pereira) fez nascer a poderosa Casa de Bragança, ainda hoje representada no Palácio de Vila Viçosa.
A prestigiada Casa de Bragança, embora oficialmente criada em 1442, na pessoa de D. Afonso, genro de Nuno Álvares Pereira, foi inspirada por este, com base nas suas terras e nos títulos honoríficos, e a partir de 1640, foi chamada a ocupar o trono, dando origem à Dinastia Brigantina (1640-1910).
Mas a vida no Minho não satisfazia Nuno Álvares Pereira, que sempre se viu talhado para a guerra, e o país precisava muito de homens de armas. O reino encontrava-se em crise e a sofrer as investidas dos exércitos castelhanos.
Com a morte de D. Fernando I, em 1383, e perante a inexistência de um herdeiro masculino ao trono, a sucessão do trono ficava entregue à sua filha D. Beatriz, mulher de D. João I de Castela.
A independência de Portugal estava em perigo. Nesta altura, Nuno Álvares Pereira já era um experiente e determinado chefe militar e não hesitou em apoiar incondicionalmente o mestre de Avis, filho bastardo de D. Pedro I, a ascender ao trono de Portugal.
Com a nomeação do mestre de Avis como regedor e defensor do Reino, verifica-se a entrada de Nuno Álvares Pereira para o conselho do governo.
O primeiro feito acontece a 6 de Abril de 1384, quando as forças do mestre de Avis, comandadas por Nuno Álvares Pereira, derrotaram os castelhanos em Atoleiros. Um ano depois, a 6 de Abril de 1385, nas cortes de Coimbra, D. João I, o mestre de Avis é aclamado rei de Portugal.
No dia seguinte, Nuno Álvares Pereira era elevado à condição de Condestável do reino, titulo que lhe é atribuído por D. João I, indicando o mais alto cargo militar da sua época.
A batalha decisiva ocorre no dia 14 de Agosto de 1385 em Aljubarrota, com um exército claramente inferior ao número castelhano, onde Nuno Álvares Pereira aplica a táctica do quadrado. Dois meses mais tarde, na incursão a Valverde, obtém nova vitória sobre os castelhanos. No campo militar ainda participou em 1415 na campanha de Ceuta.
D. João I recompensou Nuno Álvares Pereira com quase metade do País, em terras e mordomias, tendo sido também senhor das terras de Basto, entre outras.
Em 1388 iniciou a edificação da capela de São Jorge de Aljubarrota e, em 1389, a do Convento do Carmo, em Lisboa, onde se instalaram os frades da Ordem do Carmo, no ano de 1397.
Após a morte da sua mulher, em 1388, a concretização de anseios espirituais retirou-o do mundo para a Ordem dos Carmelitas.
Morreu a 1 de Novembro de 1431, numa cela austera do mosteiro que tinha mandado construir, mas o seu túmulo foi destruído no terramoto de 1755.


Beato Nuno Álvares Pereira
será canonizado em 26 de Abril de 2009




Nuno Álvares Pereira subiu ao mais alto posto militar; detentor de grande riqueza, proveniente da sua condição; íntimo da Corte Real, que serviu com lealdade e dedicação; veio depois a abandonar tudo para se fazer um simples irmão leigo carmelita, numa total doação da sua vida a Deus, recolhido em oração.
“Era o homem mais rico de Portugal que se fez pobre e padre por amor aos pobres a à Igreja” descreveu-o assim o frade carmelita Francisco Rodrigues.
O “Santo Condestável”, como sempre foi conhecido por cá, foi beatificado em 23 de Janeiro de 1918, pelo Papa Bento XV, tornando-se Beato Nuno de Santa Maria.
Em 1940, Pio XII manifestou o desejo de canonizar o beato por decreto, mas logo abandonou a intenção, prosseguindo pelas vias normais.
Após várias vicissitudes, a Ordem do Carmo, onde o militar ingressou, e o Patriarcado de Lisboa decidiram retomar a defesa da causa da canonização, cujo processo foi reaberto a 13 de Julho de 2004, nas ruínas do Convento do Carmo, em Lisboa, em sessão solene presidida por D. José Policarpo.
No decorrer dos tempos, o povo prestou culto à sua figura, atribuindo-lhe inúmeros milagres.
A canonização assenta na cura milagrosa relatada por Guilhermina de Jesus, uma sexagenária de Vila Franca de Xira, que sofreu lesões no olho esquerdo ao ter sido atingida com salpicos de óleo a ferver quando estava a cozinhar.
Após o acidente, em Setembro de 2000, a idosa consultou vários especialistas e, depois de várias novenas, na noite de 7 de Dezembro desse ano, rezou de forma intensa ao beato Nuno, tendo beijado uma imagem sua.
“Logo sentiu uma paz imensa. Foi sentar-se no sofá, ligou a televisão e apercebeu-se que via desse olho”.
A cura foi analisada e considerada milagrosa por uma equipa de cinco médicos e teólogos em Roma.
A Congregação das Causas dos Santos viria a aprovar as conclusões qua a cura não tinha explicação científica.
Após 1143, os fiéis canonizados em Portugal foram São Teotónio, Santo António, Santa Isabel, Santa Beatriz da Silva, São João de Deus, São Gonçalo e São João de Brito.
Dia 26 de Abril próximo o Papa Bento XVI vai canonizar Nuno Álvares Pereira, o 8º santo português.
A sua memória litúrgica celebra-se, actualmente, a 6 de Novembro e os católicos portugueses vão rejubilar, por verem D. Nuno Álvares Pereira elevado aos altares.

domingo, fevereiro 08, 2009

Casas Novas

Moradia senhorial do séc. XVIII, na freguesia de Gémeos, concelho de Celorico de Basto, construída em granito da região, foi sujeita, ao longo dos tempos, a várias transformações arquitectónicas, de acordo com as necessidades agrícolas e utilizações familiares.
A quinta, caracterizada por um conjunto global de meia encosta, de morfologia harmoniosa, debruçada sobre a Serra do Marão, fica distanciada, do antigo centro da vila, cerca de dois quilómetros. A sua excelente exposição, o tipo de parcelas que a constitui e as nascentes de água que ali existem, fizeram dela, noutros tempos, um magnífico celeiro do Baixo Minho. Possui um moinho hidráulico, casa de caseiro, eira, alpendre e espigueiro, pelo que o fabrico do pão constituía uma actividade autónoma.
Simultaneamente, produzia outros géneros alimentares: hortícolas, pomares, azeite e um excelente vinho verde, ainda hoje de reconhecida qualidade.
A casa, em L, desenhada e implantada segundo esquemas arquitectónicos tradicionais, privilegia os melhores conceitos de qualidade de vida, principalmente no que respeita à exposição solar. Desenvolvendo-se em três pisos, tira partido do desnivelamento do terreno. As paredes exteriores, cuja espessura varia entre 40 e 80 cm., são de granito. As interiores, quase todas em tabique, para melhor respiração; o vigamento de suporte é constituído por traves originais em madeira de castanho, sendo, igualmente, de madeira os pavimentos e os tectos, um dos quais em formato de masseira. Os telhados, de três e de quatro águas, são, quase todos, em telha antiga de meia cana, tipo marselha, e assentes, há poucos anos, em placas ondoline, para melhor isolamento.
Envolvida por grandiosas cordilheiras de montanha, a casa situa-se num local paradisíaco de onde se vislumbram as silhuetas imponentes do Monte da Sr.ª da Graça, serras do Alvão e Marão que lhes conferem, no seu todo, uma dignidade peculiar. De uma flora, particularmente bela e variada, emanam odores de encher a alma e enriquece a vista de quem a contempla. São glicínias a serpentear muros e ramadas. São japoneiras ancestrais a decorar espaços. São múltiplos especímenes de jardim a preencher canteiros. Como complemento de um cenário idílico, numa mística feita de sonho, há frondosas copas, ora de laranjeiras, macieiras e cerejeiras bravas, ora de castanheiros, oliveiras, carvalhos e eucaliptos gigantes. Por baixo, aqui e ali, pictóricos tapetes de urze servem de alimento a laboriosas e infatigáveis abelhas de cortiço.
A moradia possui "pedra de armas" na parede da entrada principal.
São conhecidas, pelo menos, sete gerações, as que viveram nesta casa, todas elas ligadas ao mesmo tronco familiar. Foi seu dono o Padre Francisco Monteiro Teixeira, do Rego, filho de Manuel Monteiro da Cunha e de D. Ana Maria Teixeira que, à sua morte e à morte de seu irmão e cunhada, respectivamente, Manuel José Teixeira Monteiro da Cunha e D. Ana (seus proprietários seguintes), transitou para o filho destes, Francisco, mais conhecido por Alferes das Casas Novas.
Refira-se que a mãe de Francisco, D. Ana, era filha de Manuel da Cunha e de D. Inácia Maria de Sousa Lobo, senhores da Casa da Breia, de Molares, e irmã do ilustre celoricense, António da Cunha de Sousa Lobo, mais conhecido por Lobo da Reboleira, que se notabilizou, no Porto, na exportação de vinhos finos para a Inglaterra.
O Alferes das Casas Novas, casado que foi com D. Maria Leonor (irmã do Frei Fernando, senhor da quinta e Casa do Casal, em Arnóia), não tendo filhos, criou e educou a sobrinha e afilhada Maria Leonor, filha do seu irmão António. António "sobrinho querido do Lobo da Reboleira", nasceu nesta moradia, em 20 de Novembro de 1812. Segundo Eduardo de Noronha, o pai de Maria Leonor viveu com o tio até se casar com Ana Rosa Alves da Mota, da Casa da Mota, Fervença. Deste casamento, houve, além da Maria Leonor, mais seis filhos: José, Fernando, Francisco, Aldejundes, Gonçalo, (proprietário que foi da Quinta dos Barreiros - Ribas) e Vasco Gustavo (proprietário que foi da quinta e Casa de Fontão, em Fervença).
Conta-se que Maria Leonor, vítima de uma educação austera por parte dos padrinhos e tios, não tendo autorização para casar com quem namorava às escondidas, aproveitando-se das missas dominicais, teve que se fazer de raptada e levada, numa manhã, a coberto da ténue luz do alvorecer (e em conluio com uma fiel criada), no dorso de um cavalo que o destemido namorado, garbosamente montava. O autor de tal odisseia foi o fidalgo da Casa de Loureiro, Casimiro Machado de Moura e Cunha, pai, que viria a ser, do futuro proprietário da Casa e Quinta das Casas Novas, Dr. Albano Monteiro da Cunha Machado.
O Dr. Albano casou com D. Felisberta Gonçalves de Magalhães e Silva, proprietária da quinta e Casa do Vinhal, em Fervença, e de outra quinta em S. Bartolomeu do Rego.
Nos primeiros tempos de casados, e enquanto a Casa passava por obras e benfeitorias de vária ordem, o casal viveu na Casa da Lage (Gémeos), de parentes seus. Ali nasceu a sua única filha, Maria Leonor, no dia 4 de Agosto de 1901. Três anos mais tarde a mãe de Maria Leonor morria, vítima de tifo.
A futura dona desta propriedade, D. Maria Leonor da Cunha Machado, viria a consorciar-se com Joaquim Narciso Bahia, filho de Deodoro Pereira Bahia e de Maria do Céu Machado da Cunha Guimarães, da Casa de Loureiro (Gémeos). Como se pode inferir pelo exposto, tanto a casa como a quinta foram, ao longo de gerações, sempre pertença do mesmo tronco familiar, cujos ramos estiveram ligados às mais importantes casas senhoriais da Região de Basto. Assim, além das Casas atrás referidas, Maria Leonor da Cunha Machado Bahia, por ascendência, tinha ligação com outras conhecidas do concelho de Celorico de Basto, tais como: Casa de Soutelo (Ribas), Casa da Lama, Casa de Vilar, Casa de Fundevila (Ourilhe), Casa da Boavista (Veade), Casa da Ribeira, Casal de Nine, Casa da Sr.ª da Saúde e Casa da Avenida (Britelo).
Os irmãos Machado Bahia, Jorge Manuel, Mário César e Maria Helena, filhos de D. Maria Leonor e de Joaquim Narciso Bahia, já falecidos, são os actuais proprietários desta Casa e Quinta que deu nome, também, ao lugar onde se localiza.

quarta-feira, janeiro 28, 2009

Jardins de Basto

Publicamos um texto de Ilídio Araújo, arquitecto paisagista, natural de Celorico de Basto, autor de inúmeros projectos ligados às quintas, palácios e jardins botânicos em Portugal.
Publicou diversas obras de relevo, das quais se destaca a “Arte paisagista e arte dos jardins de Portugal”. Desempenhou as funções de Secretário de Estado do Ordenamento Físico e Ambiente no VI Governo Constitucional.

Jardins de Basto *

"A nenhum viajante apreciador das belezas da Arte e da Natureza passará despercebido, ao atravessar a região de Basto, o carácter peculiar dos jardins que frequentemente se deixam adivinhar por detrás dos muros que guardam dos olhares devassadores do transeunte os recatados quintais dos seus solares armoriados.
Nos terraços desses quintais, os tabuleiros de plantação quase desaparecem afogados por uma profusão de esculturas verdes, em que, a par de algumas curiosas formas geométricas talhadas em buxos, teixos, camélias e cedros do Buçaco, aparecem, por vezes empoleiradas nelas, outras de feitio zoomórfico estilizado, em composições plásticas de um efeito com seu quê de estranho e maravilhoso.
Em Portugal, nos jardins formais traçados em obediência a uma tradição renascentista, sejam antigos ou modernos, a preocupação da composição vegetal, com arbustos talhados em formas geométricas, visa apenas, em geral, a assinalar certos pontos da composição dos elementos «superfície», feita à base de banquetas de buxo. Nos jardins de Basto, ao contrário, o que adquire lugar preponderante na composição são todas aquelas esculturas verdes, arcos, abóbadas, casas de fresco..., e as banquetas de buxo como que se limitam a definir os canteiros em que se dispõe mais ou menos harmonicamente essa exuberante escultura e arquitectura vegetal, e, simultaneamente, a debruar os carreiros e arruamentos.
No resto do País, a «escultura» verde anima a superfície do jardim; em Basto, domina-a completamente.
A escultura vegetal transborda frequentemente para fora dos quintais (sejam jardins exclusivamente recreativos, ou simples hortas ajardinadas - caso mais característico) e vão aparecer em elementos isolados ou em grupos nos terreiros ou em outros logradouros anexos à casa.
Estas composições constituem, como regra, criações artísticas de carácter popular, raramente submetidas àquela disciplina que caracteriza a arte de jardinagem erudita. Por vezes, as formas talhadas apresentam rara nobreza de proporções e distribuem-se em conjuntos de patente equilíbrio de massas e volumes.
Os exemplos mais curiosos desta arte são os que se deparam junto às casas: do Campo, em Molares; do Prado, em Britelo; de Pielas, em Painzela; da Boavista, em Veade; da Igreja, em Mondim; da Gandarela, em S. Clemente; da Igreja, no Corgo; do Telhô, em Arnoia... Com menos interesse, deparam-se manifestações semelhantes em outras casas, como as: de St.º Antonino, Alvação e Lamas, em Alvite; de Toiande e do Casal, em Arnoia; do Souto, em S. Clemente; do Cabo, em Agunchos; dos Machados, em Atei; da Cruz e Balouta, em Gagos; da Granja, em Ribas; do Atalho, em Mondim...
Recordam-nos estes jardins, outros que estiveram muito em voga em Inglaterra até o fim do séc. XVII e de que existem ainda exemplares famosos, como os de Hampton Court, Levens Hall, Earlshall, e outros. A tradição destes jardins conservou-se, aliás, em Inglaterra, até aos nossos dias, nos pequenos jardins provincianos sem quaisquer pretensões eruditas: Daí provém a natural pergunta:
- Como teriam vindo surgir aqui, neste escondido rincão de Basto, uns seus émulos lusitanos?
Estes jardins de Basto estão, todos eles, ligados a casas brasonadas, construídas nos sécs. XVIII e XIX. Só uma ou outra apresentará na sua estrutura algum pedaço de parede de tempos anteriores. Os jardins não são de certeza mais antigos. Apenas no da casa do Campo se notam reminiscências de um jardim mais antigo, que não será, contudo, anterior ao final do séc. XVII.
A tradição das «esculturas verdes» é, porém, mais recente. Talvez date dos meados do séc. XIX, parecendo ter sido para aqui trazida por duas senhoras que passaram a sua juventude e fizeram a sua educação em Inglaterra: D. Emília Ermelinda Ferreira Pinto Basto e sua irmã, D. Justina, sobrinhas de João Ferreira Pinto Basto, – agente da Companhia das Vinhas do Alto Douro, em Londres, no princípio do séc. XIX – em cuja companhia viveram. A mais velha, D. Justina Praxedes (que nasceu em 1809), veio a casar com Teodoro de Carvalho e Almeida, senhor da casa de Pielas, e aí faleceu em 1905.
Sua Irmã, D. Emília Ermelinda (nascida em 1818), casou com José Pinto Dá Mesquita, senhor das Casas da Igreja, em S. Romão do Corgo, e do Prado, em Britelo.
Foram essas senhoras que orientaram o ajardinamento das quintas das casas em que passaram a viver depois do seu casamento, elas mesmas instruindo continuamente os seus hortelões sobre aquilo que queriam que elas fizessem.
D. Emília, segundo consta, recolheu em sua casa, de S. Romão, o pequeno Manuel Joaquim Alves Soares, de 3 anos de idade, a quem mais tarde fez aprender desenho no Porto, vindo a ser o seu jardineiro, e tronco de uma verdadeira dinastia de jardineiros a quem se devem praticamente todos os jardins de Basto. Sucedeu-lhe na arte seu filho Joaquim Alves Soares, que viveu em Fermil e foi o pai da actual geração de jardineiros, que já vão exercendo a sua profissão noutras terras.
Das casas de Pielas, Prado e S. Romão, a novel arte na região de Basto alastrou a outras casas senhoriais dos arredores, impondo-se agora que pessoas com a sensibilidade artística daquelas senhoras impeçam que uma tradição tão interessante venha a degenerar nas aberrações que começam já a surgir aqui e além."

* Texto de Ilídio Alves Araújo
In Guia de Portugal, Entre Douro e Minho,
Fundação Calouste Gulbenkian






segunda-feira, dezembro 01, 2008

João Pinto Ribeiro

"O dia 1 de Dezembro de 1640 amanheceu [...] alegre. [...] Tinham combinado os conspiradores juntar-se às nove horas da manhã, no Terreiro do Paço. Meia hora antes já todos ocupavam os seus postos. Chegavam tão tranquilos que perguntando uns dos da sua companhia a João Pinto Ribeiro "Onde iam?" respondeu-lhe sorrindo: "Não se altere. Chegamos ali abaixo à sala real e é um instante enquanto tiramos um rei e pomos outro." [...]
Bateram, finalmente, as 9 horas. De súbito abrem-se as portinholas dos coches; [...] saltam por elas os fidalgos [...] e sobem as escadas do paço. Muitos nobres e populares aguardam impacientes que um tiro de pistola, disparado do palácio, lhes dê sinal de travarem também a luta. Os conspiradores, entretanto, investem a sala da guarda, apanhando os soldados atónitos [...]. D. Miguel de Almeida [...] assomando-se às varandas do palácio [...] bradou com voz sufocada de comoção: "Liberdade, portugueses! Viva El-Rei D. João IV! O Duque de Bragança é o nosso legítimo rei!" [...].
Da praça, onde a multidão se agitava em ondas, respondeu-lhe um trovão de vozes.
[…] Chegaram finalmente os conspiradores à porta dos aposentos de Miguel de Vasconcelos. Bateram os fidalgos e, vendo que a porta não se abria, começaram a despedaçá-la com [...] machados [...]. Miguel de Vasconcelos, sentindo a morte próxima, escondeu-se dentro de um armário de papéis. [...] Descoberto, no mesmo instante [...] atravessaram-no com as espadas [...]. Uns criados, mal o viram caído no chão, segurando nos braços do corpo, arremessaram-no por uma janela. Era o infeliz tão detestado [...] que ninguém se comoveu […]."
In História de Portugal nos Séculos XVII e XVIII de Rebelo da Silva

João Pinto Ribeiro célebre conjurado da revolução de 1 de Dezembro de 1640, nasceu no começo da última década do século XVI em Lisboa. Era filho de Manuel Pinto Ribeiro, natural de Amarante, que ainda jovem partiu para Lisboa tendo regressado à sua terra em 1610 onde viveu até 1646 no lugar de Frariz na freguesia de Lufrei, e de Helena Gomes da Silva, natural da Lixa.
Teve uma irmã, Francisca Ribeira da Silva, casada com Manuel de Sousa Pereira, senhor da quinta de Crasto, na freguesia de Gatão, que então pertencia ao Concelho de Celorico de Basto.
Deste casamento, teve um filho, o capitão António Pinto de Sousa, que viveu em Celorico de Basto na quinta da Refontoura (Gémeos) e depois na quinta de Santo Andou (Arnoia) propriedade de sua mulher.
Será esta a verdadeira ligação de D. João Pinto Ribeiro às terras e gentes de Celorico de Basto?
João Pinto Ribeiro formou-se na Universidade de Coimbra (1607-1617) com o grau de bacharel em Direito-Canónico. Foi Juiz de fora das Vilas de Pinhel e Ponte de Lima; Administrador dos negócios da Casa de Bragança em Lisboa; Agente da aclamação de D. João IV; Cavaleiro da Ordem de Cristo; Guarda-Mor da Torre do Tombo e Desembargador do Paço.
Foi casado com D. Maria da Fonseca, "que se achava no estado de viuvez e com filhos do seu primeiro marido". João Pinto Ribeiro morreu em 10 de Agosto de 1649 sem deixar filhos legítimos ou ilegítimos.

Em reunião da Câmara Municipal de Celorico de Basto, a 12 de Julho de 1940, com a presença do Presidente substituto em exercício, Dr. Joaquim Bernardino Machado Cardoso e os vereadores, Padre Manuel Lopes da Cunha e o Sr. Francisco Teixeira da Silva, e ausência justificada dos vereadores Roberto Vaz Teixeira de Vasconcelos e João Gomes Ferreira, foi aprovada por unanimidade a proposta subscrita pelo vereador Padre Manuel Lopes da Cunha:
Estando averiguado que João Pinto Ribeiro, um dos maiores heróis desse grupo de homens que no primeiro de Dezembro de 1640, numa hora de febre patriótica e num delírio de amor pátrio, resolveu sacudir o jugo estrangeiro que durante sessenta anos escravizara o clero, a nobreza e o povo às mais vexatórias humilhações, tivera o seu carinhoso berço dentro dos limites deste Concelho, na fidalga e risonha freguesia de Arnoia, e comemorando-se este ano o terceiro centenário de tão grande feito, proponho à Excelentíssima Câmara que se levante uma estátua ou busto a tão assinalado herói na Praça ou Jardim desta Vila, fazendo-se a sua inauguração no primeiro de Dezembro do ano corrente. […] Considerando porém as precárias condições financeiras deste município, proponho ainda que se proceda imediatamente a uma subscrição pública para auxiliar as despesas.

O monumento com o busto de João Pinto Ribeiro foi colocado no centro do jardim público da Praça Albino Alves Pereira, em frente ao antigo edifício da Câmara Municipal onde actualmente está instalada a Casa do Agricultor. Com as obras de requalificação do Centro Urbano da Sede do Concelho no ano de 2006 foi deslocado para o extremo da referida praça.

domingo, novembro 30, 2008

Casa do Povo de Celorico

As Casas do Povo foram regulamentadas pelo Decreto-Lei nº 23 051 de 23 de Setembro de 1933.
O Alvará da Casa do Povo de Celorico de Basto foi emitido pelo Sub-Secretário de Estado das Corporações e Previdência Social, em 17 de Março de 1943.
Inicialmente a sua sede social foi na Praça Albino Alves Pereira, em instalações provisórias e sem condições condignas, não deixando contudo de prestar a assistência médica e farmacêutica à população das freguesias de Britelo, Arnoia, Codeçoso, Gémeos e Ourilhe.
Os seus Estatutos contemplavam outros objectivos, nomeadamente "assegurar o exercício da actividade de previdência e de assistência nos casos de doença, desemprego, invalidez e velhice". E por outro lado, "cooperar no ensino das crianças e dos adultos, tendo em vista a elevação do nível de cultura profissional e geral, e o melhor aproveitamento do tempo disponível dos trabalhadores".
A Casa do Povo de Celorico de Basto foi fundada pelo Dr. Joaquim Bernardino Machado Cardoso, que exercia o cargo de Presidente da Câmara Municipal e que nomeou os primeiros órgãos sociais:

Assembleia Geral
Presidente: António Alves Monteiro
Vogal: Francisco Gonçalves
Vogal: António Pereira de Oliveira

Direcção
Presidente: Alberto Fernandes de Freitas
Secretário: Faustino Pinto de Lemos
Tesoureiro: Alfredo Pires

Continua...